15 Novembro 2009

Cinco Discos que Comprei pela Capa

Gastei metade de minha adolescência agachado ou debruçado sobre prateleiras dos sebos de Maringá. Sempre procurei conhecer o status daquilo que comprava, fossem discos ou revistinhas pornográficas. A mania de querer saber o nome de tudo, infelizmente, venceu o hábito de escolher um filme ou um livro pela sinopse, por exemplo.

Os sebos de Maringá são abarrotados de discos de vinil a preço de Milkybar, uma boa aos que amiúde acham aborrecida essa impalpabilidade da música comprimida. E foi isso que possibilitou essa minha lista de exceções - as capas são grandes e gostosas de olhar; ganham os olhos e depois o coração. Risos.

Então aí vai o meu top five de capas de LPs que me seduziram.

1. The Wake. Here Comes Everybody (1985)

É um sei-lá geométrico dum tal de El Lissitzky. Eu nunca sequer ouvira falar dessa banda escocesa, mas lucrei um disco post-punk legalzinho e ainda descobri o que era o construtivismo russo.

2. Lloyd Cole and the Commotions. Mainstrem (1987)

O olhar sofrido do rapaz boa-pinta me fez imaginar que se tratava de um discípulo do grande Leonard Cohen ou um outro Ian Curtis, vocalista suicida do Joy Division. E acho que não errei muito feio: essa banda, também escocesa, é um pouco folk e um pouco rock alternativo e chama a atenção pelo esforço lírico das letras.

3. Marina Lima. O Chamado (1993)

Okay, a Marina já era conhecida velha de guerra - meu pai sempre levava no porta-luvas umas K7 dela. Mas foi só quando vi essa capa que decidi ouvi-la por opção. A faixa-título sustenta o disco juntamente com Pessoa, um cover do Dalto. Essa última de tão linda dói.

4. The Fall. Bend Sinister (1986)

Esse foi meu tiro mais certeiro. Diferentemente dos outros quatro, comprei não por achar a capa bonita, mas por supor que seria um bom disco post-punk. Sem querer, descobri um dos meus discos de rock preferidos. A parte lamentável é que, tendo visto dois deles juntos na prateleira, eu achei válido presentear uma garota com ele. Quando eu voltei ao mesmo sebo, cadê meu Bend Sinister, Jesus Cristo?

5. Fleetwood Mac. Bare Trees (1972)

O grupo eu pouco conhecia e não me chamara a atenção até eu ver as árvores peladas e a sincera e profunda desolação de seu cenário.

Irene no Céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
lisemsa mel branoc!!!!11um1
E São Pedro bonachão:
emtra ireen vose na1 presisa perdi lisemsa!!!111q

Manuel Bandeira. Libertinagem, 1930.

25 Outubro 2009

Você Me Sorriu

Você me sorriu
e eu não saberia
se foi porque lhe sou caro
ou se foi um mero, involuntário
dispêndio de simpatia.

Você me sorriu
sem tecer nenhum prefácio,
sem seguir nenhum crescendo,
sem me dar um final fácil.

Você me sorriu
e eu desejei te ver hostil
a quem fosse que passasse;
que você me indicasse
que nunca sorria à toa;
que sorriso não haveria
se houvesse ali outra pessoa.

Você me sorriu
e eu nada pude entrever.
Você me sorriu
e eu só quero saber por quê.

23 Outubro 2009

Eu Vivo Sempre no Mundo da Lua

Nessa segunda-feira, eu não acordei - como me é típico nas segundas-feiras - e fui à aula. Meus conhecimentos de Álgebra Linear seriam postos à prova no primeiro horário, às 7:30 horas. Estranhei que o ônibus das 7:10 horas da linha do campus estivesse quase vazio, mas aproveitei o conforto acústico que só o interior dum automóvel desses nos oferece para examinar a matéria da prova.

Enquanto eu me aproximava da sala ao longo do corredor, estranhei novamente que, às 7:28 horas, toda a turma já estivesse resolvendo a prova linda e absolutamente. Quando eu me acomodo numa das carteiras, para reforçar meu estranhamento, o professor se aproxima e, como quem segreda, me pergunta se eu ainda quereria resolver a prova. Sem nada entender, eu lhe digo que sim e questiono o sentido de sua pergunta. E só aí fico sabendo que eu estava atrasado em uma hora. A quem interessar, eu resolvi 95% das questões nos 50 minutos remanescentes e apesar de ter me orgulhado disso, estive mais preocupado com minha lunaticidade...

O horário de verão chegara e ninguém me avisou.

22 Setembro 2009

Dumbledore

Dumbledore já foi vivo.

Já foi vivo e jovem. Já teve cor no cabelo e suíças socadas para fora. Já teve, até, uma carreira musical há umas décadas.

Descobri um álbum esquecido aí na internet. É o tipo de música de cuja audição saímos sempre ilesos, o que não quer dizer que seja ruim. Há um hit do qual nunca ouvira falar até então, MacArthur Park, que tem uma letra estranhíssima e foi regravada por um monte de bacana. Mas quem é que me explica os seguintes versos?

Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again

A Tramp Shining (1968), de Richard Harris.

01 Setembro 2009

A Deitar Tijolos

Boa parte dos recém-conhecidos jovens manifestam estranhamento - quando não reprovação - ao saber do curso (superior) pelo qual eu levanto cedo, atravesso madrugadas e os restantes. Não os culpo por reagirem à óbvia discrepância entre o tal curso e minha figura. Acho até justo; eu mesmo já iniciei uma faculdade legal. E como legal, entendem-se cursos que possibilitem o exercício de uma atividade minimamente artística ou que se tratem de uma ciência pura (desses que te condenarão à licenciatura ou ao desemprego).

Mas aí eu me lembro que, hoje (nesses tempos) e aqui (sob esses céus), a universidade não é senão um curso profissionalizante, e não mais uma instituição do saber. E então, eu relevo.

24 Agosto 2009

Slasher

Sempre haverá alguém pra colocar uma manta nas costas da moça casta e lhe oferecer uma caneca de chá depois que o assassino em série é (tido como) morto na madrugada dentro de seu próprio sobrado, então sitiado pela polícia local.

Mesmo agora não tendo em mente nenhum título em específico, na minha cabeça o final é sempre esse. E só estou falando isso porque vi uma lista com clichés do gênero e esse quadro não foi mencionado.

21 Agosto 2009

Milkybar

O mais aborrecido do hábito de fazer as necessidades (comer, a priori) nos Restaurantes Universitários - refiro-me só àqueles que também são apelidados pelo acrônimo, R.U. - é a coletivização do espaço. Poderia mencionar as lufadas mornas de almoço que a cozinha exala, as filas ou a ambientação. Mas não é o caso. E também não é o da higiene - mesmo porque confio mais em suas cautelas asséptico-sanitárias do que nas dos outros restaurantes dos quais os arredores de uma universidade dispõem.

O que é mais intragável que o bife de adamantium é a possibilidade de pessoas (pessoas quaisquer; pessoas) se sentarem ao seu lado. Aí você tem de aproximar seus pertences. Aí você tem de limitar seus cotovelos. Aí você está aproximado a um ou mais estranhos não só pelo espaço, mas também pela dissaborosa cumplicidade de que você e o outro não estariam lá se aceitassem gastar com o almoço mais do que se gastaria com um Milkybar.

Tudo isso seriam veleidades, apenas, se os próximos não sobrecarregassem suas bocas com a atribuição de falar. Não sei como o mundo molesta os sentidos de vocês, leitores, mas meu estado de espírito ainda não se emancipou das condições auditivas.

Minha filosofia de vida é centrada na crença da aleatoriedade de acontecimentos, também dita acaso. Mesmo assim, não consigo deixar de pensar que sou vítima de uma deliberação maligna e misteriosa quando as conversas mais irritantes postam sempre suas bandejas ao meu redor.
Detectada minha irritação, pude empilhar traços dos sujeitos escolhidos pelo Departamento de Deterioração de Almoço (DDA) do Instituto Cósmico de Irritação de André Kangussu (ICIAK), uma fundação não lucrativa, mantida apenas pela sede de crueldade e de diversões sujas do acaso.

Vou chamar de Cronos o sujeito de perfil genérico que trabalha pro DDA e me acompanha nas refeições. São todos Cronos; assim, Cronos conversa com um ou mais Cronos. Vamos às características: Cronos está sempre insatisfeito com o preço das fotocópias. Cronos pretende mestrar-se em outra universidade paranaense. Cronos é abundante ao falar mal de seus professores. Cronos argumenta sobre a sexualidade do colega de classe. Cronos fala sobre os relacionamentos antigos com comida nos dentes. Cronos é supereclético, gosta de qualquer tipo de música.

Não estou lhes apresentando o sujeito com mágoa - é o trabalho dele, o Cronos -, trata-se apenas de meu espanto quanto à insistência das coisas em se repetirem.




26 Julho 2009

A Tirania dos Contemporâneos

O violoncelo investia contra o piano
O piano cantava uma paisagem meso-européia.
A paisagem, um dia,
visitou a retina
dos olhos de um compositor que eu desconheço.

E eu estava no fogo-cruzado entre essa
e as canções-colagens marginalizadas,
executadas por um passageiro,
que cantavam o triunfo dos sons digitais.

A retina jamais cheirara gasolina.
E seu finado portador nada poderia
contra a música comprimida.

Nem mesmo recorrer ao homem de terno,
cheio de boa vontade e inocência,
que um dia,
dentro de um gabinete da prefeitura,
decidiu que nos ônibus da cidade se tocaria música erudita.

24 Julho 2009

Feito um Pacote Flácido

A noite está silenciosa e enquanto eu a perco na internet, ouço um som abafado e distante de algum apartamento superior. No ato, consulto o relógio de rodapé para apurar o depoimento que eu fantasio a dar na manhã seguinte quando um tira bater à minha porta para saber mais sobre a mulher que foi encontrada enrolada em plástico em um córrego regional.